Sam is coming!

Do ponto de vista jornalístico, o rock deveria produzir mais caras legais como Sergie Loobkoff — o mesmo vale pela visão de um fã de “boa música”. Entrevistar o guitarrista do Samiam pela segunda vez – sete anos após a primeira conversa — confirma a afirmação!

De malas prontas para o segundo giro pelo Brasil, os californianos a princípio fariam apenas um show em São Paulo (no dia 06/12, no Hangar 110), mas Mr. Loobkoff revela que São José dos Campos e Rio de Janeiro também terão a oportunidade de vê-los ao vivo — por enquanto no MySpace deles só consta a do Rio, dia 10/12!

Confira a conversa exclusiva que tivemos com Sergie, nela ele conta das lembranças da tour brasileira de 2002, de seu trabalho como designer gráfico, literatura, Obama, as maiores farsas da música atual, e, claro, as expectativas para os shows por aqui!

Entrevista: Sergie Loobkoff (Samiam)
Por Ricardo Tibiu
Tradução: Marina Melchers

Queria começar falando da turnê que vocês fizeram por aqui em 2002, mas é impossível não lembrar de uma coisa em particular. Eu te entrevistei por e-mail antes de virem pra cá e na época eu escrevia para um jornal grande daqui… Enfim, quando vi o texto publicado tomei um susto, o editor não pensou duas vezes e o título da matéria foi: “Californianos trazem emocore ao Brasil”…
[Risos] Isso provavelmente foi na época em que a palavra “emocore” era bastante popular e quem sabe seu editor achou que as pessoas teriam mais interesse em ler a matéria. É, a gente não grita e não faz peripécias com as guitarras jogando elas para o alto ou usa maquiagem… então espero que não tenhamos decepcionado ninguém.

Então, como você definiria o som do Samiam para uma pessoa que nunca o ouviu antes?
Essa pergunta é bastante comum quando dou entrevistas. Na verdade, eu nunca falo para as pessoas que conheço ou com quem trabalho que já tive uma banda. E se eles descobrem e perguntam, geralmente respondo “rock… mais ou menos como Foo Fighters ou Green Day”. Eu imagino que se elas nunca ouviram falar do Samiam, então elas não têm interesse ou não sabem muito sobre punk rock. Foo Fighters e Green Day são os pontos de referência mais próximos para elas. Se eu dissesse “nossa banda é mais ou menos como Lemonheads com Bad Brains ou Descendents”, elas diriam “nunca ouvi falar dessas bandas” [risos].
Na verdade eu detesto quando amigos me apresentam para as pessoas dizendo que eu fazia parte de uma banda… para mim é embaraçoso. Geralmente a pessoa pergunta “qual é o nome da sua banda? Ah, nunca ouvi falar…” [risos].

Voltando à tour de 2002, quais são suas lembranças dela?
Nos divertimos tanto… aquela turnê nos levou a vários lugares do Brasil e vimos muitas coisas e conhecemos tanta gente. No meio da turnê eu fiquei muito doente, não comi ou dormi por três dias. Foi horrível. Quando melhorei eu senti como se o peso do mundo tivesse sido tirado das minhas costas, porque ficar assim tão doente em turnê é difícil demais. Eu dormia no chão do ônibus, nos pés de todo mundo, suando como um louco e ao mesmo tempo congelando. E aí eu precisava tocar quando mal conseguia parar em pé. Mas a melhor coisa foi conhecer muitas pessoas legais. Estamos muito ansiosos para ver muitas delas novamente. Bem, com sorte, se elas ainda se interessam e vêm aos shows. Quando você faz parte de uma banda há tanto tempo, é engraçado como as pessoas param de vir aos shows… Elas podem vir aos shows ano após ano, mas em determinado momento elas se casam ou arranjam um bom emprego, e aí perdem o interesse nessa bobagem de punk rock [risos].

Da outra vez vocês vieram para cerca de 10 shows e desta vez teremos uma única apresentação. Por que isso? As pessoas de fora de São Paulo tão achando que o Samiam não gostou delas… Ok, tô brincando!
Originalmente seria apenas São Paulo, mas agora vamos tocar em São José dos Campos e no Rio também. Eu não sei qual a explicação para menos shows, talvez porque vamos tocar no Chile e Argentina dessa vez, então foi uma questão de tempo e também dos compromissos dos membros da banda. Eu adoraria voltar a todas cidades… a decisão não foi da banda. Em São José dos Campos vamos tocar com o Dead Fish, estou muito ansioso para vê-los, vai ser muito legal! Eu gostaria que pudéssemos tocar em Santos com o Garage Fuzz de novo, é uma pena!

O Samiam e o Jawbreaker foram citados no romance Eeeee Eee Eeee (2007), de Tao Lin. Em tempos de crise fonográfica e artistas/músicas tão ruins, acha que foi uma forma de valorização do trabalho de vocês?
Eu nunca conheci Tao Lin pessoalmente, mas trocamos e-mails porque ele queria permissão para publicar algumas de nossas letras. Parece ser um cara legal. É um bom escritor também. Acho que ele é simplesmente uma pessoa que gosta de nossas bandas, então é sempre legal saber de alguém que aprecia o que fazemos. Eu não sei quanto a “valorizar nosso trabalho”, isso soa como se nós nos levássemos muito a sério. O Samiam não é um “trabalho” e nós definitivamente sabemos que há um milhão de bandas por aí, não somos nada de muito especial. Mas é legal. O Jawbreaker é mencionado em um livro de um escritor famoso chamado Dennis Cooper, da década de 90… Eu fiquei extremamente impressionado com aquilo quando o li. Na verdade fiquei chocado e surpreso. O livro era muito estranho, mais ou menos como uma história de amor através dos olhos de um pedófilo… Um homem mais velho e um garoto adolescente… [risos] definitivamente algo que a maioria das pessoas não conseguiria suportar. Era muito estranho… Pensando nisso agora, não faço ideia de por que comecei a lê-lo. Deve ter sido porque alguém me recomendou!

Aproveitando, o Samiam tem cerca de duas décadas e “somente” sete discos, sendo o mais recente de 2006. É impressão minha ou vocês gravam pouco? Já existem planos para um novo álbum?
Pra dizer a verdade, lançamos seis discos em 11 anos, de 1989 a 2000. Não é nada mau. E aí, basicamente, a banda acabou… ou parou de fazer turnês ou gravar seriamente. Nos últimos nove anos fizemos uma turnê ou outra por ano, mas não trabalhamos a banda como nos anos 90. Em 2006, tentamos fazer um sétimo disco, mas foi um fiasco total, alguns de nós brigávamos muito e acabamos fazendo um disco abaixo dos padrões, que me decepcionou muito. As músicas são muito boas, mas o som é horrível. Basicamente há uma divisão na banda, onde uma pessoa quer que o Samiam se torne algo totalmente diferente, mais thrash e com o som fodido, e eu quero que o Samiam soe como Samiam. Para mim, nossas gravações devem ser bastante nítidas, claras e poderosas. Isso era basicamente o motivo das brigas.
Recentemente falamos sobre fazer um disco novo… e eu escrevi e gravei (de forma caseira) nove faixas que acho que seriam ótimas canções do Samiam… mas realmente precisamos dar um jeito na tensão dentro da banda com relação às nossas intenções antes de nos comprometermos a fazer um disco novo. Fazer outro álbum de que eu não tivesse orgulho é algo que partiria meu coração. Ainda assim acho que poderíamos realmente nos redimir com um disco novo “quebrando tudo” em 2010. Vamos ter que esperar para ver!

Quais seriam seus três discos prediletos atualmente?
Isso muda sempre, mas nesse momento eu diria que amo o Where You Been, do Dinosaur Jr., How It Works, do Bodyjar e o álbum branco dos Beatles.

E as três maiores farsas da música mundial de hoje?
Eu não presto muita atenção no cenário musical, mas sempre há os grandes pop stars que são bobos e fazem algo que atraia as massas para ganharem dinheiro sem nenhuma consideração pela arte ou talento. É simplesmente assim que funciona. Uma coisa que tento nunca fazer é escolher determinadas bandas ou artistas e dizer que são horríveis. Claro, eu não gosto de Jonas Brothers ou do Kanye West, mas eles são importantes para muitas pessoas… Então quem sou eu para dizer qualquer coisa negativa sobre eles?! Eu só penso [risos]. Claro, eu acabo de escolher os Jonas Brothers e o Kanye West, então estou sendo um hipócrita… que se foda: eu os odeio! [risos].

Você é designer gráfico, ainda tem feito trabalhos para bandas?
Sim, mas há 10 anos eu fazia umas duas capas de disco por mês, e agora, com a indústria fonográfica na merda, faço uma a cada dois meses. É bastante triste, mas não há dinheiro na música, então não há trabalho. A maioria das bandas tem um amigo que cuida disso para eles de graça. Recentemente fiz a arte do último Strung Out [Agents of the Underground, Fat Wreck Chords, 2009] e estou trabalhando com algo para o Piebald… E fiz uma caixa para o aniversário de 15 anos da Hopeless Records, mas é isso, agora a maior parte da minha clientela não faz parte da indústria fonográfica.

Aliás, ainda sobre esse assunto, fiquei sabendo que recentemente rolaram uns “art shows” e, inclusive, com a participação de nomes como H.R. (Bad Brains), Walter Schreifels (Gorilla Biscuits, Rival Schools), Jonah Matranga (Far, Gratitude), Steve Soto (Agent Orange, Adolescents) e Jeff Pezzati (Naked Raygun, Big Black). Como eram esses eventos e como foi reunir esse time de peso?
Isso foi no final de semana passado e foi muito divertido. Mas eu era apenas um dos artistas, não organizei nada… um cara chamado Joe Nelson [The Killing Flame, ex-Ignite] organizou tudo, trouxe os artistas até Los Angeles. Foi um evento beneficente para duas organizações de caridade, então foi muito legal. O H.R. foi muito interessante, ele é um velho estranho hoje. Parece ser legal e tranquilo, mas meio louco. O Walter foi incrível, ele tem tanta personalidade no palco… Eu não sou gay… mas aquele cara é muito charmoso! É melhor você não levar sua namorada ao show dele [risos]. Pezzati e Soto foram muito legais também. Foi muito legal… e eu vendi três peças também!

Como designer gráfico, como você vê a expansão que essa área teve? Concorda que, por exemplo, anos atrás ninguém diria que a street art e o graffiti se tornariam tão populares. Nem mesmo que a imagem mais forte usada por um candidato à presidência nos EUA seria assinada por um “artista que veio das ruas” – no caso, Shepard Fairey.
Eu não sou mesmo o tipo de artista que Shepard Fairey, então eu não quero parecer um cara metido. Mas falando como um fã de arte, eu acho legal que essa cena exista, que você possa ir a uma exposição onde Barry McGee ou Shepard estão expondo e há centenas de pessoas e muito entusiasmo. E é muito legal que caras como o Farofa, do Garage Fuzz, possam ser convidados para mostrarem sua arte em outros países. É maravilhoso. Mesmo se ele tenha vindo à Los Angeles no ano passado e não tenha entrado em contato comigo… eu só fiquei sabendo depois. Filho da puta! [risos]. E quanto à arte do Obama, Shepard é um grande artista. Antes disso ele fez capas para o Led Zeppelin e para o Smashing Pumpkins e outras coisas enormes, não é como se ele tivesse sido “descoberto” com o lance do Obama… Bem, eu acho que então para o público mainstream, talvez, então eu não fiquei exatamente surpreso. Eu acho que ele arranjou alguns problemas por ter usado uma foto sem autorização para aquele poster… que merda.

Pra finalizar, obrigado pela entrevista, quais são as expectativas para o show no Brasil. Algum recado aos brasileiros?
Minha única expectativa é me divertir. Não há rios de dinheiro e não estamos divulgando um disco ou coisa do tipo. Eu espero poder compartilhar algumas músicas com um público entusiasmado! Encontrar alguns velhos amigos e fazer novos. É sempre divertido estar em uma cidade legal tão longe de casa… São Paulo ou Rio ou São José, é legal. Estou sempre em Los Angeles, pode se tornar algo repetitivo [risos]. Espero que alguns de seus leitores brasileiros que leiam essa entrevista decidam ir até o show, vai saber quando ou se vamos voltar um dia! Obrigado!

Links relacionados:
www.myspace.com/highlightsounds
www.myspace.com/samiam
Sergie Loobkoff [arte]
www.ticketbrasil.com.br [venda online de ingressos]
www.hangar110.com.br

19 pensamentos sobre “Sam is coming!

  1. O Samiam não é a minha banda de hc melódico preferida…mas gosto deles. Se me recuperar a tempo de uma lesão no meu pé, vou com certeza a esse show..

  2. Eu acho muito foda o Samiam, eu vou ao show como fui no outro há sete anos.
    Bem, uma coisa engraçada que rolou em um show que fui em São Bernardo foi que o vocal pediu para alguém escrever algo em sua camiseta, tipo “meu pai é bicha”… E aí ele teve a manha de no meio do show falar algo do tipo: eu pedi para ele (algum brasileiro da produção) escrever na lingua de vocês que eu sou um cara legal… muito espirituoso!

  3. Ansioso pra caralho pelo show !!!

    O Sergie parece ser gente fina mesmo, mas o Jason parece ser bem mais hehehe… pena ele nunca responder as entrevistas.

    Mas de qquer forma domingo estou lá para ver um dos shows que mais tenho vontade de ver na vida.

    Parabéns pela entrevista, Tibiu, e depois me passa as infos de art-show

    Abração

  4. Umas das melhores experiencias da minha vida, foi ter feito parte de 3 shows da tour de 2002 com a minha antiga banda [mono]. Foi foda ver o show desses caras e poder ter tido algum contato com eles. Parabéns, Tiba.

  5. Pingback: viaje no samiam novo! | chiveta ——¬

  6. Pingback: post-quicksand | chiveta ——¬

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s