incenso e hardcore

De um dos cenários efervecentes do hardcore norte-americano (Boston), em 1992 nasceu o 108 – aliás, do fim do Inside Out, sim, sim amiguinho, a banda que Zack de la Rocha tinha antes de formar o Rage Against The Machine. O 108 acaba de iniciar sua primeira turnê pela América do Sul em Quito (Equador) no dia 18 de abril. De lá partiram para Bogotá (Colômbia), Santiago (Chile) e Buenos Aires (Argentina) e no dia 24 desembarcam por aqui com suporte da Hurry Up! Records. A banda passará por Rio de Janeiro (24/04), Espírito Santo (25), Minas Gerais (26) e São Paulo (27) onde tocará no festival Animal Liberation Fest III ao lado de Rethink, Overstate, Good Intentions e Still Strong. chiveta trocou uma idéia com o vocalista Rob Fish/Rasaraja, que não foi lá muito simpático… Ah, esquecemos de perguntar qual sua fragrância predileta de incenso… fica pra próxima! Confira abaixo!

Todos na banda são adeptos de Krishna?
Bem, falando realisticamente, não existe uma “filosofia” Krishna. Existe a teologia de Gaudiya-Vaisnavismo, e os grupos cuja inspiração vem dessa teologia, mas todos eles vêem as coisas de formas diferentes, às vezes sutilmente, outras não, então a idéia de que exista um tipo uniforme de filosofia ou prática não condiz com a realidade. A única coisa em comum é Krishna, mas todo o resto difere de pessoa para pessoa e grupo para grupo. Quanto ao 108, Vic, Trivikrama e eu encontramos grande inspiração nas origens do Gaudiya-Vaisnavismo, mas a forma como isso influi em nosso dia-a-dia, inspirações e aspirações difere. Não existe uma “mensagem Krishna” uniforme no caso do 108. Falamos do que nos inspira e deixamos o ouvinte decidir o que isso significa para ele.

Os devotos cobram algum tipo de postura de vocês em relação à divulgação de Krishna em sua música, principalmente nos shows?
Tenho certeza que sim, mas isso é e sempre foi irrelevante para nós. Não somos um coral de igreja, nem representantes de alguma religião, organização ou culto. Nós somos indivíduos que têm inspirações em comum vindas de Gaudiya Vaisnavism, e falamos sobre isso às vezes em nossa música. O que as pessoas esperam de nós e o que acabam vendo é irrelevante para nós. Somos quem somos e fazemos o que fazemos, e as pessoas podem interpretar isso como quiserem.

A história do 108 se cruza com tantas outras bandas que fizeram história, como Inside Out, Quicksand, Seaweed, Burn e Shelter. Por que as bandas que vocês tocam se tornam lendárias?
Acho que as pessoas simplesmente gostam das bandas. Todas elas eram únicas, musicalmente, nas letras e na postura ascética, e eu acho que as pessoas apreciam bandas que fazem as coisas do seu jeito e não se conformam ou tentam ser como alguma outra.

Por falar em Shelter, eles já tocaram no Brasil algumas vezes e sempre quando vêm o rótulo “krishnacore” é citado. Você definiria o 108 como uma banda de krishnacore?
Não, e pra ser sincero eu não faço idéia do que isso significa, sério. Shelter e 108, apesar de serem bandas amigas nunca compartilharam uma “plataforma” em termos de mensagem ou mesmo de como vivíamos. Quem vê de fora pode olhar pras duas bandas e dizer que elas têm “o lance Krishna” em comum, mas como eu disse antes, apesar da inspiração para ambas as bandas ter vindo da mesma teologia, todos nós vemos as coisas de formas diferentes, então não existe uma plataforma uniforme entre essas várias bandas.


incenso no dos outros é refresco

Num mundo cheio de desigualdades em que vivemos, o que falta para que organizações como a Food For Life possa ampliar sua atuação? Vocês têm alguma ligação com a organização?
Bem, eu não posso falar pela Food For Life, pois é um nome que muitos adeptos do movimento ISKCON [n. do E. International Society for Krishna Consciousness, Sociedade Internacional para a Conscientização Krishna, uma vertente do Gaudiya-Vaisnavismo] usam, mas é uma organização autogestionada. Todas as pessoas que fazem algo sob o banner de “Food For Life”, fazem do jeito que querem. Então eu não posso falar em nome da Food For Life.
Em termos de bem estar social, eu acho que cada pessoa precisa desenvolver um senso de compaixão para com o mundo em volta de si. Muitas pessoas na sociedade só se importam com o que elas e seus entes queridos sofrem, então a conscientização social e a compaixão são poucas. Depois tem aqueles que se envolvem tanto em uma causa que qualquer pessoa que pense ou aja fora do que eles consideram certo é tido como herege. É uma dinâmica triste. Individualmente, se todos nós nos esforçássemos para viver com um senso de “redução de malefício”, ou apenas fizéssemos o que podemos para sermos melhor com os outros, com o ambiente e o mundo ao redor de nós, já seria um ótimo começo.

Aliás, os shows que farão no Brasil terão distribuição de alimentos? Qual seria a diferença entre distribuí-los para um público punk/hardcore, que tem um condição de vida supostamente razoável, que para moradores de rua?
Bom, eu não sei se haverá distribuição de comida. Novamente, o 108, diferentemente do Shelter não é ligado ou afiliado com a ISKCON ou qualquer outro movimento. Se houver distribuição, será por vontade própria. Quanto à diferença entre fazer isso em um show e com moradores de rua, é óbvio. Por um lado é uma coisa boa, talvez encoraje as pessoas a se envolverem em um programa desse tipo, mas ao mesmo tempo alimentar moradores de rua é um ato de conscientização social e compaixão que pode literalmente salvar a vida de alguém, então é bastante importante.

Krishna também é conhecido por 108 nomes, que acredito é de onde vem o nome da banda. Que outros sinônimos vocês acham que punk/hardcore poderia ter?
Na verdade a inspiração para 108 veio do foco em Radha e nas outras 107 Gopis, que são as companheiras de Krishna.

O quê nós podemos esperar dos shows do 108 por aqui?
Você pode esperar que a gente toque pesado e deixe cada grama de nosso ser no palco toda noite. Tocaremos uma mistura de músicas novas e velhas e vamos dar tudo de nós em cada show.

Como está o cenário hardcore nos EUA e a música americana em geral?
Depende da cidade. Música é música, ou seja, tem bandas que se aventuram, que estão aí para criar algo diferente e desafiador, e aí tem aquelas que fazem o que já foi feito antes. Então existem algumas bandas ótimas e outras que se contentam em existir e ser como todo o resto.

Como você vê a relação da internet com o mercado fonográfico, acha que ela ajuda ou atrapalha? Te pergunto isso porque aqui no Brasil a indústria passa por uma séria crise. As majors reclamam da pirataria e dos downloads gratuitos, mas recentemente o cenário independente também teve uma queda considerável nas vendas de CDs.
Bem, a indústria fonográfica não é diferente em lugar algum em termos de como a internet afetou tudo. Para uma banda há os pontos positivos (muito fácil de divulgar a banda e ser ouvido) e negativos (todo mundo pode ser ouvido, o que dá lugar à quantidade ao invés de qualidade). Para um selo, é bem parecido. Você tem acesso a mais pessoas, mas elas também têm acesso mais fácil para piratear seus lançamentos.

E para finalizar, na bandeira do Brasil está escrito “Ordem e progresso”, que obviamente não é o que temos por aqui. Se você pudesse colocar uma frase na bandeira americana, o que seria?
Manipulação, Corrupção e Assassinato.

We have interviewed Rob Fish/Rasaraja, the lead singer from North American band 108, who will soon tour South America for the first time, with four shows here in Brazil. Click here to check the English version of the interview!

Mais infos do 108: www.facebook.com/108HC

3 pensamentos sobre “incenso e hardcore

  1. Pingback: 108jaw | chiveta ——¬

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